Pablo Trapero

Diretor

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Em setembro de 2014, Pablo Trapero venceu, com seu mais recente longa-metragem, O Clã – sucesso comercial estrondoso na Argentina –, o prêmio de melhor direção no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde, em 1999, o cineasta havia exibido seu primeiro filme, Mundo Grua, à época, recebido com grande entusiasmo pela crítica, que apontou o diretor como um dos talentos mais promissores de sua geração. O filme ganhou o Prêmio Anicaflash e Trapero recebeu o Prêmio Cult Network Itália, de melhor direção.

 

Mundo Grua foi visto como uma espécie de releitura sul-americana e tardia do neorrealismo, movimento do cinema italiano, que fez história e teve enorme impacto na produção mundial, com ecos observados até os dias atuais ao redor do mundo. Neste seu primeiro – e impressionante – longa-metragem, Trapero tece um retrato ao mesmo tempo cru e poético do mundo operário, fazendo do homem do povo um herói solitário, em constante enfrentamento com um país derrotado, assolado por dez anos do governo Menem, que teriam sido para a Argentina o que a Segunda Guerra Mundial representou para a Itália. Em Mundo Grua, estão presentes alguns dos traços que marcariam toda a filmografia do diretor ao longo das duas décadas seguintes. Seus filmes, que têm um corte invariavelmente realista, por vezes quase documental, retratam gente comum, do povo, em atividades ao mesmo tempo triviais e extraordinárias, pois de certa maneira denunciam os imensos abismos sociais e as recorrentes injustiças sociais na Argentina contemporânea.

 

Mas os filmes de Trapero não se limitam a ser obras socialmente engajadas, de viés apenas político: vão bem mais além disso. Graças à sua notável habilidade na construção de personagens bastante complexos, o diretor também faz de seus filmes, dramas existenciais potentes. Exemplo dessa preocupação é Zapa, protagonista de Do Outro Lado da Lei (El Bonaerense, de 2004), um jovem marginal que se torna policial por força das circunstâncias. Depois de se envolver em um incidente em sua pequena localidade, é enviado à capital Buenos Aires, onde tem a chance de recomeçar, mas, ainda que do lado certo da lei, cumpre seu destino trágico, que parece estar traçado de antemão.

 

Outra característica recorrente na obra de Trapero é a busca por um cinema do pequeno gesto, no qual cada parte significa mais do que o todo e a proximidade da câmera com os personagens beira o absurdo. Isso se faz presente desde Mundo Grua e se apresenta de forma peculiar no terceiro longa-metragem ficcional do cineasta argentino, Família Rodante (2004), experimentando um novo gênero: a comédia. A trama segue uma matriarca que decide, acompanhada de toda a sua família, retornar a Missões, sua cidade natal, aonde nunca mais voltou desde a juventude, para uma festa de casamento. A bordo de um trailer, construído em cima de um velho Chevrolet Viking 56, no qual cabem seus filhos, netos, genros e noras, toda a sorte de sentimentos represados vem à tona, na medida em que a família coloca-se em movimento.

 

Dono de um estilo pulsante, a tensão dramática não resulta apenas do encadeamento das situações, mas, sobretudo, da forma com que constrói cada cena. Trapero oferece um cinema que emana dos personagens e das relações que entre eles se estabelecem diante de sua câmera investigadora. O deslocamento também se faz presente como tema em Nascido e Criado (2006), mas ressurge dentro de um contexto completamente diferente. A comédia cede lugar ao drama psicológico, de caráter bem mais intimista, acompanhando a trajetória do protagonista Santiago, um designer de interiores, que perde sua estabilidade emocional quando provoca, por descuido ao volante, um acidente automobilístico que vitima sua família. Consumido pela culpa, ele migra para uma região inóspita da Patagônia, no sul da Argentina, onde tenta purgar suas culpas e fugir do passado.

 

Mais uma vez, é notável a habilidade do cineasta de, mais do que usar seu cinema para expressar pontos de vista pessoais, sejam eles de ordem social ou existencial, alcançar a verdade mais íntima de seus personagens, expressá-la de forma complexa, por meio de uma câmera que perscruta e instiga o espectador a desvendar o protagonista, cuja dor se revela aos poucos, sem pressa. Em Leonera (2008), Trapero regressa a uma temática de caráter mais social, sem abrir mão do registro intimista, ainda que dentro de uma estética realista. O longametragem, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Havana, Cuba, acompanha a jornada de Julia, uma mulher presa sob a acusação de matar o namorado em uma situação incerta, envolvendo também o suposto amante de seu companheiro, que levaria uma vida dupla.

 

Caso seja condenada, é possível que passe muito tempo encarcerada, mas ela está grávida e vai parar em uma outra ala do presídio, conhecida como Leonera– onde vivem as “leoas”, como são chamadas as mães presidiárias. Lá, enfrenta o conflito de, ao mesmo tempo, vivenciar uma morte simbólica, o encarceramento, e vivenciar a maternidade. Novamente, o intimismo do cinema de Trapero faz toda a diferença, deixando-nos muito próximos do drama da protagonista, dissecando seus dramas, como costuma fazer com os personagens centrais de outros filmes, homens e mulheres à deriva.

 

No seu longa seguinte, Abutres (2010), o diretor faz uma incursão ao cinema de gênero, o suspense policial, mas sem se afastar do engajamento que marca sua cinematografia, que, por conta da sutileza com que constrói suas tramas e personagens, não resvala no tom panfletário e, portanto, mais simplificador. O tema central do filme é a indústria de indenizações decorrentes dos milhares de acidentes automobilísticos ocorridos todos os anos na Argentina. No centro do enredo, está o ardiloso advogado Sosa, interpretado pelo astro Ricardo Darín, que também vive um dos protagonistas do filme seguinte de Trapero, o drama social Elefante Branco (2012).

 

A presença dos filmes do diretor no FICBIC 2015 oferece a sua retrospectiva um novo olhar, iluminando novamente sua tão significativa cinematografia e convidando o espectador a refletir sobre sua trajetória e suas construções de mundos e personagens, que ultrapassam seu país de origem para constituírem panoramas internacionais. A Trilogia da Luz, com seus três segmentos, câmera, diretor e espectador, renovará os frames já premiadas de Pablo Trapero.