Luz do Mundo

BIENAL DE CURITIBA 2015

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A LUZ DO MUNDO NA BIENAL DE CURITIBA 2015

A luz do mundo em Curitiba, a luz do mundo que vem de Curitiba: a edição de 2015 da Bienal Internacional de Curitiba tem por tema a arte da luz, a arte com a luz, a arte feita de luz e que tem na luz sua matéria, seu material e conteúdo.

A luz é a condição necessária para que exista a obra de arte em seus variados modos. Mas existe um território da arte contemporânea que se volta para a luz em si mesma como condição suficiente para sua manifestação sem recorrer a qualquer mediação de forma ou recurso conceitual e estilístico. Entre todos os modos da arte, a arte da luz é possivelmente aquele que mais livre da retórica e da cerebralidade se mostra. Na arte da luz há um silêncio de palavras e imagens dos mais apropriados à criação, ao redor de quem a contempla, das condições ideais para um contato direto com a pura experiência estética, aquela que vários artistas procuraram ao final do século 19 e início do seguinte sem de fato alcançar até o surgimento, primeiro, do abstracionismo e, depois, da arte da luz.

O título e seus ecos

O titulo da edição de 2015 da Bienal Internacional de Curitiba foi extraído do romance epônimo do autor islandês Halldór Laxness, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1955.  O título do romance, de 1927, não é o único motivo para sua reprodução nesta Bienal. Vivendo e escrevendo num ponto extremo do mundo, num literal fim de mundo, Halldór Laxness insistia em afirmar o poder da beleza, que ele localizava no centro da experiência poética em qualquer de suas formas. E por esse motivo o título do romance e a memória de Halldór Laxness é aqui reivindicada. Esse escritor  também venerava e pagava seu tributo à natureza, cuja “música inefável” ele podia escutar e na qual conseguia distinguir a “revelação sonora” de uma divindade que para ele não era imaginária ou religiosa mas resultante do sentimento de todos os seres vivos em suas relações uns com os outros e com o mundo – um mundo que, ele escreveu, deveria guiar-se pela ideia da liberdade e da justiça social.  Estas palavras não poderiam ser mais contemporâneas.  Neste ano de 2015 ,que a UNESCO declarou o Ano da Luz e que marca os setenta anos do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki,  a proposta de Halldór não poderia ser mais oportuna.

A luz foi continuamente  identificada com a beleza, existiu e existe uma cultura da luz como modo do belo e não é sem razão que o gênero humano vê beleza na luz, para além de sua natureza de meio tão indispensável à vida quanto a água e o ar. Está claro  hoje que a luz vem de todos os cantos do mundo, não apenas de alguns deles privilegiados por escolhas ideológicas ou costumes geopolíticos, o que dá mais força à beleza nela existente. No entanto, a luz não é apenas positividade, e esta edição da Bienal de Curitiba, ciente de que luz e escuridão formam um par indissociável, irá lembrá-lo. A luz pede mais luz, tal como Goethe pode ter dito em suas últimas palavras – e é isso que a edição deste ano da Bienal de Curitiba quer sugerir uma vez mais: que a luz traga mais luz. O brilho excessivo da luz, porém, não ocultará seu lado sombrio.

A luz da arte e a “vitória sobre o sol”

Há uma outra corda da cena da arte tocada por esta edição da Bienal de Curitiba – e ela tem a ver com o sonho,  a ambição e a pretensão mais  antigos, expressivos e soberbos  dos artistas, pelo menos na forma que assumiram no início do século 20, um dos momentos mais férteis  em inovação na  arte.      Em 1913 foi encenada em São Petersburgo, Rússia, uma ópera futurista intitulada Vitória sobre o sol. Com prólogo do poeta Velimir Khlebnikov e cenários de Kasimir Malevich, essa ópera escrita de acordo com os princípios da  linguagem futurista “zaum” – em russo, “além da mente”, “transrazão” e “alémsenso” e que apostava na indeterminação do sentido—tinha por objetivo abolir  o sol, retirá-lo de cena e deixar o mundo aberto para a luz artificial, a luz do homem, a luz da arte.  Com a retirada do sol, anotou Malevich a escuridão total que se instalaria libertaria o artista  da opressão que o sol  insistia em exercer  sobre  o artista ao lhe apontar aquilo que podia ou devia ser representado,  pintado, esculpido. O sol põe o mundo em evidência – mas o mundo era pouco para o artista do começo do século 20.  Cabia ao artista propor a luz e com ela definir seu mundo. Esta Bienal porá em cena alguns desses modos de instaurar a luz no mundo a partir da arte; alguns deles estão assinados por artistas que estiveram entre os pioneiros dessa tendência e outros inscrevem-se numa prática atual que continua a propor a arte da luz como modo contemporâneo por excelência.

 

Teixeira Coelho

Curador Geral

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