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Antípodas
Diverso e reverso

DIVERSIDADE: OS EXTREMOS APROXIMADOS

A diversidade é uma das grandes características distintivas da arte contemporânea (como da cultura em geral). Considerado não como um tema, mas como uma abordagem, o diverso permite assumir tanto a multiplicidade de modelos e agentes artístico-culturais, como também a pluralidade de territórios, temporalidade e meios de expressão que hoje tornam o campo da arte complexo e promovem a expansão de seus meios.
Tendo sido refutada a moderna autonomia da arte, a sensibilidade e o pensamento contemporâneos promovem a consideração de estéticas alternativas ao modelo hegemônico da arte ocidental: a erupção de formas provenientes da cultura indígena e popular, assim como a importância concedida à arte em regiões com tradições próprias, alheias à história europeia e norte-americana da arte. A ruptura da temporalidade moderna fomenta a presença destes regimes diferentes de arte que não se alinham com a figura evolutiva do progresso ocidental e geram anacronismos, retrocessos e cortes nas diferentes histórias que impulsionam tais regimes.

Por outro lado, a refutação da ordem moderna permite que a própria arte seja considerada também por outras expressões que ultrapassam o terreno das artes plásticas. Assim, os limites entre os meios audiovisuais e literários ficam borrados e são promovidas experiências espaciais plurais. A erupção das tecnologias digitais e a hegemonia da cultura globalizada atuam como forças transversais que agitam ainda mais os domínios da arte outrora organizados.
Essas questões surgem hoje em um panorama inundado por imagens; uma cena regida pela lógica instrumental do mercado: a publicidade, o espetáculo, a comunicação e o entretenimento. A profusão de imagens leva a duas questões que cruzam esta bienal de maneira entrelaçada. A primeira tem a ver com as possibilidades de se produzir imagens poeticamente densas e providas de um fio crítico e conceitual, na contramão da estetização banal que inunda o campo da visão. A segunda, consequência da questão anterior, assume o fato de que a produção da imagem digital é hoje superior à capacidade de sua recepção e emprego. A visão enfrenta um aumento desmensurado de informação visual que excede sua possibilidade de assimilação. Esse excesso, que requer o contrapeso reflexivo e crítico recém-mencionado, exige o isolamento da imagem do turbilhão de imagens flácidas e transparentes, incapazes de redefinir o sentido. A arte contemporânea assume essa situação através de diferentes estratégias, que ultrapassam o âmbito do fotográfico convencional e exigem soluções que vão além da fotografia – o que poderia ser qualificado como “fotografia expandida”, cruzada por técnicas diferentes e baseada em reforços conceituais variados.

 

DE LADO A LADO COM O MUNDO

A diversidade, como expressão das múltiplas diferenças que enriquecem o horizonte sociocultural contemporâneo, ocupa seu lugar central na agenda das políticas públicas; não só das que se referem ao espaço do cultural, mas também, e especialmente, do meio ambiente, economia, e desenvolvimento social. No âmbito estrito da arte, ainda que a diversidade seja reconhecida como uma força indispensável, não tem sido suficientemente desenvolvida na temática das bienais e continua disponível para mobilizar obras com respeito a seu fecundo conceito.
A Bienal de Curitiba 2017 adota o tema da diversidade como um ponto de referência para ativar questões e imagens sem restringir os conceitos ou procedimentos empregados pelos artistas. Assim, o título não fixa um tema ou motivo: ele aponta uma abordagem característica da atualidade que busca gerar sinergia entre obras profundamente díspares e divergentes em suas propostas.

O tema da bienal remete a diferentes ideias de diversidade, confronto, antinomia e coincidência em um mapa-múndi continuamente polarizado e simultaneamente forçado à homogeneização globalizante. As exposições trabalham a diferença geográfica e cultural entre o leste asiático da China e seu antípoda, o Cone Sul da América Latina, pontos extremos do planeta. Mas como qualquer figura levantada no âmbito artístico, a das antípodas convertem-se em metáfora de inúmeras conexões entre vários outros países do mundo que sempre têm seus próprios antípodas; isto é, ocupam um lugar extremo em relação a outro. A metáfora, sempre escorregadia, também pretende opor posições no plano da técnica e dos conteúdos diversos, enfrentados ou aliados entre si. A bienal permite a possibilidade de traçar diferentes constelações entre estes mundos que se distanciam e se aproximam, que se cruzam e se ajustam em diferentes ocasiões e lugares.

O roteiro curatorial da bienal articula diferentes propostas expositivas. Por um lado, tem como eixo as distantes posições da arte da China e do Cone Sul latino-americano, confrontando duas mostras localizadas no Museu Oscar Niemeyer (MON): Vibrações, que sob a curadoria de Fang Zhenning e Liu Chunfeng exibe arte contemporânea chinesa, e Além da Fotografia, curada por Ticio Escobar, que reúne um conjunto de artistas do Cone Sul latino-americano, trazendo a questão da fotografia expandida. Por outro lado, o roteiro desenvolve diferentes exposições que, ao redor deste eixo, mobilizam propostas curatoriais particulares.

Finalmente, a figura da diversidade permite à bienal acolher a pluralidade de expressões culturais (teoria, arquitetura, culinária, desenho, cinema, literatura, etc.), bem como a riqueza da expressão cidadã e a posta em cena da própria cidade de Curitiba. A diversidade contemporânea atravessa diagonalmente estes campos e disciplinas cujas as articulações mobilizam os processos de significação social em ritmos diferentes. Assim, a bienal integra um amplo âmbito de atividades que, estando a cargo de diversos atores e instituições, ocorrem entre o poético, o estético, o acadêmico, o urbano, o cívico e o ambiental.

A natureza flexível desta bienal permite a coexistência de mostras organizadas pelo curador-geral junto de outros artistas convidados diretamente pela organização da bienal ou exposições correspondentes a iniciativas de cidadania. As exposições incluem programas de intercâmbio cultural e incentivo geracional. Neste sentido, serão apresentadas duas mostras com curadoria de Gabriela Ramos e Carolina Loch, ambas premiadas como Jovens Curadoras da Bienal de Curitiba 2017. A primeira mostra ocorrerá no Centro de Artes Visuais / Museu do Barro do Paraguai, e a segunda, no Museu da Fotografia de Curitiba. Esta bienal também integra programas de extensão cultural através de vínculos com três bienais internacionais: BienalSur, Bienal de Xangai e Bienal do Cafam.
Este texto faz referência somente às ações e mostras de artes visuais correspondentes aos convites realizados pelo curador-geral ou pela organização da bienal. Esta restrição responde a critérios editoriais e não tem a intenção de desmerecer outras manifestações, que serão apresentadas em outras seções do catálogo geral.

 

CARTOGRAFIA E DIFERENÇA

Vibrações é o título da mostra de arte contemporânea da China, país homenageando nesta bienal. Essa exposição confronta-se com Além da fotografia, mostra integrada por artistas do Cone Sul latino-americano; desta maneira, a curadoria reforça a posição de pontos geográficos extremos, diametralmente opostos. Esta alteridade radical é tratada através de uma abordagem voltada à diversidade. A arte tem a possibilidade de criar vínculos e traçar diagramas entre as culturas e os lugares mais distantes: a imagem é, por antonomásia, um dispositivo capaz de unir pontos diferentes, distantes, para traçar com eles diferentes constelações de sentido. O diverso contemporâneo se reforça com a vinculação de zonas, mundos simbólicos e situações opostas que coincidem sem pôr em risco suas identidades. Assumir a diversidade permite, assim, retomar a ideia de universalidade que, em contraposição à tendência homogeneizante da globalização, nutre-se das diferenças particulares ao redor de eixos de confronto, cruzamento e coincidência.

A exposição de arte chinesa trata o diverso contemporâneo não só a partir de posições cartográficas contrapostas, mas também a partir da pluralidade de sensibilidades e subculturas geracionais: a mostra apresenta obras de artistas jovens que se posicionam diante do universal contemporâneo em tensão com diversas tradições e experiências locais.

 

A EXPANSÃO DA IMAGEM

Se a exposição Vibrações trata a diversidade desde seu sentido de diferença cultural, a mostra Além da fotografia parte do diverso dos meios de produção e obra, especificamente a fotografia, que adquiriu uma presença privilegiada no panorama da arte contemporânea.

Esta mostra toma como ponto de partida a fotografia, analisando seu potencial conceitual, expressivo, crítico e poético, especialmente quando cruzada com outros meios. Mas também pode partir diretamente de outras expressões que tendam a se cruzar com a fotografia e desafiar seu encapsulamento.

Assim sendo, a curadoria desta mostra parte da figura da fotografia expandida, ideia que refuta a autonomia formalista que faz do meio técnico um fetiche. A crítica desta autonomia é uma das características mais notáveis da arte contemporânea, que é enriquecida com cruzamentos e montagens de tempos diferentes e impulsionada por movimentos de expansão e contaminação. Os artistas que participam da exposição Além da fotografia transcendem o procedimento fotográfico considerado em sua pura especificidade técnica e o abrem à convivência com outros meios estéticos e expressivos. Deixam de lado toda a consideração fetichista da técnica para usar a imagem de maneiras complexas que privilegiam proposta acima dos meios.

 

A DIVERSIDADE DO OLHAR

Sob a curadoria de Marta Mestre (MON), a exposição Song for my hands (Canção para minhas mãos) explora a diversidade de percepções condicionadas pela nacionalidade, sensibilidade e conceitos dos artistas, bem como pelos procedimentos utilizados em suas obras. A oposição entre pares: arte/técnica, por um lado, e pensamento abstrato/trabalho manual, por outro, permite que a curadora trabalhe a materialidade da obra em processos que oscilam entre o artesanal e o industrial, o reflexivo e o sensorial.

O curador Massimo Scaringella apresenta a mostra Antítese Imagens Síntese (MON/Memorial de Curitiba). A exposição usa como referência a dialética hegeliana para trabalhar a pluralidade de posições de artistas contemporâneos que mobilizam ações e pensamentos a partir de energias criadoras e memórias diferentes. Tanto o componente conceitual como o poético atravessam as propostas de grandes questões contemporâneas, como a percepção estética, a memória, o conflito realidade vs. ficção e o papel da técnica no cotidiano e na produção da obra.
A exposição Dualidades humanas (MON), Arte e Vida (MAA) e O Fluxo do Tao (SEEC), curadas por Luiz Carlos Brugnera, radicalizam o momento da antítese, a partir do qual traz várias dicotomias, tais como dentro/fora, guerra/paz, Terra/Marte, vida/morte, aparecimento/desaparecimento, humano/animal, aproximação/distanciamento, preto/branco, ser/estar, passado/presente, dúvida/verdade e oriental/ocidental. Esses antagonismos suscitam uma atmosfera de inquietação e se referem a vários modos de conciliação que nunca poderão ser totalmente resolvidos, mas que, em sua tentativa de síntese, mobilizam um problema amplo que inclui questões de territórios e fronteiras, da memória e da percepção do corpo. Tais dicotomias são inerentes aos seres humanos, que só têm a percepção de determinado sentimento ou experiência a partir da ausência de seu extremo.

Justamente ao lançar um segundo olhar é possível compreender a indivisibilidade das antíteses, de forma que contraditoriamente desiguais, são complementares uma a existência da outra, o que as torna inexplicavelmente perfeitas. As exposições serão bastante envolventes, pois o apreciador de alguma forma projetará suas próprias experiências no momento da observação, de modo que haverá um mistifório entre vida e arte – resumindo a antítese: realidade e fantasia.

O curador Agnaldo Farías apresenta a exposição Release (MON) que reflete sobre uma questão-chave da arte contemporânea: a relação entre imagem e texto. A artista Juliana Stein problematiza essa relação apoiando-se na noção de traço compartilhada pela fotografia e pela escrita. Mas a impossibilidade de que uma e outra se unam gera um excedente e uma falta. O traço pode registrar até certo ponto, a partir do qual começa uma pura ausência; gera-se, então, um curto-circuito na significação, um breve espaço em branco onde palavras e imagens perdidas são vislumbradas.

Sob a curadoria de Tulio de Sagastizábal, é exposto o longo trabalho de pesquisa fotográfica de Guadalupe Miles (MON) sobre vários momentos da comunidade Wichi, localizada em Santa Victoria Este, no Chaco de Salta. O trabalho parte do vínculo da artista com Tiluk, que foi xamã e líder da comunidade. Além de trazer a presença indígena, componente indispensável da diversidade na América, a mostra levanta as diferentes tensões enfrentadas pela fotografia documental e proposta de obra, estética e documento, aura e digital, etnografia e arte.
Curada por Ticio Escobar, a exposição de Rodrigo Petrella (Solar do Barão) reúne fotografias tiradas em diversas aldeias indígenas da região amazônica. Estas obras vão além da fotografia por três motivos. Em primeiro lugar, porque mobilizam formas estéticas que em si configuram o que nós chamamos de “arte” (penachos, pinturas corporais, rituais, música, literatura oral, coreografia, representação teatral). Em segundo, porque essas fotografias, que oscilam entre o documental o propriamente expressivo, acabam não sendo tão importantes como testemunhos de uma realidade objetiva, mas sim como geradoras de imagens que sugerem mundos esquivos, potentes, impossíveis de serem registrados pelo aparelho. Por último, por transcenderem a ordem do registro e a expressão estética, as obras de Petrella atuam como um apelo político em prol dos direitos da diversidade. Visualizar os agentes omitidos na cena social é, segundo Rancière, o gesto político por excelência. Este movimento gera desacordo no plano da representação: um desajuste que se torna fonte de toda demanda emancipatória.

Porque o mundo nunca deve perder seus afetos (Memorial de Curitiba e Museu Paranaense) é o título da mostra curada por Dannys Montes de Oca e Royce Smith. Segundo eles, esta frase se refere ao fato de que os processos de significação social não se baseiam em consensos harmônicos, mas em tensões turbulentas que continuam provocando disparidades, intolerâncias e assimetrias. Em vez de aliviar esses conflitos, o excesso tecnológico os exacerba, uma vez que não se enquadra em políticas públicas propícias a tratar da diversidade. Mas, através das obras expostas, a curadoria busca tratar de nossas antípodas (razão/emoção, local/global, etc.), procurando entre seus interstícios o advento de “tempos interessantes”, capazes de manter as melhores reservas da condição humana.
A exposição de arte chinesa curada por Zhang Zikang (MuMa) exibe obras de uma nova geração de artistas do país pertencentes a uma sociedade cada vez mais aberta à globalização e, simultaneamente, ainda vinculada de muitos modos a sua forte tradição cultural, de forte peso histórico. Os jovens artistas exploram com audácia diversas reinterpretações do complexo presente apresentado pelo novo cenário mundial para que eles possam “sentir o pulsar dos tempos e a ressonância do espírito”, como define poeticamente o curador.

Fernando Ribeiro trabalha em uma curadoria de obras performáticas que partem de uma fotografia do assassinato do embaixador russo na Turquia em 2016. A curadoria segue o rastro da divulgação desta fotografia nas redes sociais e envolve discussões sobre seu potencial artístico. A questão é tratada através de performance art: a imagem vai além da fotografia, desembocando em uma arte viva que, vinculada a práticas cotidianas, perturba as cronologias temporais e renova as significações do fato ocorrido com foco nas perspectivas sociais e políticas.

Fang Zhenning apresenta uma exposição de arquitetura contemporânea chinesa (Palácio Iguaçu) com a intenção de confrontar o produzido nas antípodas e de construir pontes de comunicação entre os hemisférios oriental e ocidental. Além disso, a mostra busca promover o intercâmbio cultural e difundir a vasta experiência chinesa no plano da arquitetura contemporânea vinculada, ainda, com projetos diversos que incluem a urbanização.

A exposição das obras de José Rufino, intitulada Opera hominum (MON), recebe a curadoria de Leonor Amarante. A mostra é integrada por 21 painéis que exibem monotipias das mãos de trabalhadores de uma usina impressas sobre recibos de pagamento coletivo. Essas manchas escuras são um testemunho arqueológico de uma usina de cana de açúcar hoje em ruínas, mas vitalmente carregada pela memória dos trabalhadores. Este tratamento permite documentar, enquanto obra de arte, uma experiência particular de forte conteúdo social e político. Encara, assim, um dos desafios mais complexos da arte contemporânea: compatibilizar o nível estético com narrativas e conceitos potentes que ocorrem além do círculo da forma pura.

 

Tício Escobar
Curador