Artistas

José Rufino

Opera Hominum não é um acelerador de emoções, mas o processo vivo de interação entre a história coletiva dos trabalhadores de uma usina de açúcar e álcool e a experiência pessoal do artista José Rufino. A instalação pode ser uma ode aos empregados que passaram parte de suas vidas como cortadores de cana, caminhoneiros, fundidores, todos empregados da Usina Santa Terezinha. Localizada em plena zona da mata pernambucana, no município de Água Preta, hoje desativada, mas transformada no centro cultural Usina de Arte, a partir da postura lúdica de seu ex- proprietário Ricardo Pessoa de Queiroz, ainda dono das terras onde ela está plantada. O empresário optou por ressignificar um espaço, agora ativo para jovens artistas.

Erguida de forma imponente entre colinas de canaviais, a usina está impregnada de histórias. A área administrativa guarda alguns tesouros do trabalhismo brasileiro como as folhas de pagamento dos operários de várias épocas. De posse dessa documentação, Rufino convida alguns deles para integrarem sua Opera Hominum, deixando que suas mãos sejam “impressas”, em monotipia, sobre essas folhas amareladas pelo tempo. Rufino se apropria de objetos do obscuro universo burocrático para incorporá-los e transformá-los em corpo vivo.

O mundo canavieiro é bem familiar para ele, que foi menino de engenho, bisneto e neto de coronéis paraibanos, poderosos senhores de terra, escravos e milícias. A subjetividade dessa obra se dá no campo de fronteira com a transposição artística de uma experiência social. Ao serem desprivatizados, esses documentos rompem os limites entre o público e o privado e aderem ao ocultamento linguístico dadaísta por meio de uma realidade histórica, não reduzida à mera crônica.                                                                                                                                                                  A instalação composta por 70 painéis arqueológicos destaca as mãos de 20 operários e uma única mulher, funcionária da administração.

Toda a produção de Rufino, que acaba de receber o prêmio da Associação Brasileira dos Críticos de Arte, A BCA, como o melhor artista contemporâneo de 2016, se inspira na articulação de objetos recolhidos de seu legado familiar, como móveis, cartas, documentos, fotografias, além de episódios da vida política de seus pais, históricos militantes de esquerda. Ao adotar o pseudônimo José Rufino, nome de seu avô paterno, protagoniza um passado oligárquico do Nordeste, que continuamente ele põe em xeque.