Performance ressignifica a película cinematográfica com experimentalismos sonoros

Artistas Lígia Teixeira e Francisco Gusso apresentam ao público performance sinestésica durante abertura da mostra de videoartes “Fluxo Fluido”, no MuMA.
Artistas Lígia Teixeira e Francisco Gusso em performance na abertura da exposição "Fluxo Fluido"

Segundo Regina Melim, no livro Performance nas Artes Visuais, o termo “performance” é tão genérico quanto as situações nas quais ele é utilizado. Na vida, bem como em diversas áreas do conhecimento, a palavra transita em meio a muitos discursos e talvez por isso, torne-se tão instigante quando usada no campo da arte.

“Nas artes visuais, sempre que ouvimos a palavra ‘performance’, é comum nos remetermos de imediato à utilização do corpo como parte constitutiva da obra”, afirma Melim. “Muitas vezes, também, somos levados a pensar em um único formato, baseado no artista em uma ação ao vivo, visto por um público, num tempo e espaço específicos”.

A performance contemporânea abraça múltiplos desdobramentos, inclusive interdisciplinares. Em uma pequena sala escura do Centro de Arte Digital do Museu Municipal de Arte de Curitiba (MuMA), no último dia 20 de novembro, cerca de quarenta pessoas puderam presenciar uma performance sonora e visual de aproximadamente vinte minutos dos artistas curitibanos Lígia Teixeira e Francisco Gusso, por ocasião da abertura da exposição “Fluxo Fluido” – mostra que apresenta videoartes de artistas brasileiros e internacionais (de países como Estados Unidos, Rússia e Argentina). A exposição e a performance integram a programação da Bienal de Curitiba 2018 | 25 Anos. 

Vestidos com batas compridas e pretas, descalços sobre um tapete e posicionados um em cada canto do fundo da sala, Lígia e Francisco criaram uma narrativa experimental, sinestésica, a partir de pequenos atos: no primeiro deles, ela, com um violoncelo, ele, com um teclado que se passava por órgão de igreja; a atmosfera criada pelo violoncelo nos primeiros minutos era ruidosa, sacra, levemente agonizante. Aos poucos, o cello voltava a um tom grave, acompanhando o som de órgão. O segundo ato também poderia remeter à um imaginário ritualístico. Ele, tocando um pequeno tambor, ela, uma mini-harpa de chão. O terceiro ato brincava intimamente com o ar: ela, tocando pequenos sinos intervalados, ele, criando som apenas girando um tubo de plástico, quase nos princípios de um teremim – o primeiro instrumento eletrônico da história, controlado sem qualquer contato físico, apenas com osciladores de freqüência sonora. Em um quarto momento, ela assume um xilofone, ele um contra-baixo, em uma melodia mais dark e cada vez mais pesada, quando ela volta ao noise do violoncelo, até o final.

Tudo isso produzido ao vivo frente à uma projeção, exibindo recortes e montagens de filmes em película criados por Lígia Teixeira, que é cineasta e videoartista, a partir de velhos rolos de filme. A película cinematográfica é um de seus principais objetos de estudo, e a artista coleciona diversos materiais garimpados em sebos e antiquários. O found footage representa para a artista o encontro com um verdadeiro tesouro de imagens esquecidas por décadas em latas, na maioria das vezes em mau estado de conservação. A valorização destas imagens, a apropriação, manipulação, telecinagem e ressignificação representa para a artista uma retribuição aos filmes. Montando e embaralhando os frames de maneira nova, a intenção é a busca de sensações e estranhamento através da experiência cinematográfica com a película.

‘Susto’, e ‘O estranho caso da mulher sem cabeça’ foram as duas obras criadas especialmente para a exposição Fluxo Fluido, da Bienal Internacional de Curitiba, assim como a performance sonora realizada junto com o cineasta e artista plástico Francisco Gusso, que apresenta duas obras na exposição, ‘Motion Painting’ #1 e 2.

A performance surge como um novo elemento do trabalho dos artistas, que tem uma relação estreita com a música. Lígia e Francisco, por serem instrumentistas, criam juntos as trilhas sonoras para filmes e outras videoartes que realizaram. A proposta também dialoga com a matéria prima utilizada neste trabalho, um filme 8mm com data de 1922, época em que não existia película com banda sonora, e as apresentações musicais ao vivo acompanhavam a projeção dos filmes no cinema.

Você pode conferir o registro da performance no canal do Youtube da Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba, clicando aqui

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *