“Nada é a não ser a continuidade de nós mesmos”

Entrevista com Elvo Benito Damo.

Desde que optou dedicar a vida à arte, em 1971, a partir da Escola de Belas Artes e nos primórdios de sua atuação à frente do Ateliê de Escultura do Centro de Criatividade de Curitiba, a partir de 1974, são mais de 40 anos em atividade, principalmente através da escultura. Conversamos com Elvo Benito Damo — um dos maiores nomes da escultura paranaense e brasileira.

Como foi seu debute na escultura?

Pela Escola de Belas Artes, sou bacharel em pintura e tenho licenciatura em desenho. A escultura surgiu para mim, como profissão e como artista atuante, a partir de 1976, quando comecei a passar no Centro de Criatividade, no Ateliê de Escultura. A partir de 1976 eu posso dizer que é uma data da minha atividade mais profissional, mais consciente, mais atuante na área da escultura.

Quem eram os seus mestres naquela época, quando você começou nos anos 70?

O Paraná sofria um vazio muito grande naquela época na área da escultura. Além dos três artistas principais, que foram Erbo Stenzel, (João) Zaco Paraná e João Turin, Zaco e Turin com formação européia, mesmo quando voltaram ao Paraná e à Curitiba, eles não transmitiram o conhecimento deles a gerações futuras. Então quando eu estava começando, na década de 70, nós tínhamos o Jéferson Cézar, Cleuza Salomão e praticamente mais nada na área da escultura. Nós tivemos que buscar conhecimento de forma autodidata até certo ponto, e trazer profissionais escultores de fora, que foi o caso do Xico Stockinger, de quem eu me considero cria, e do Carlos Gustavo Tenius. A partir desse pessoal, participamos de alguns cursos, e eu tive oportunidade de ir a Porto Alegre fazer um estágio na residência do Xico. Assim fomos incrementando novas técnicas, fomos trabalhando, erramos muito — erro em cima de erro — até conseguir acertos, com toda a dignidade de um trabalho árduo que é a escultura. 

Esses mestres citados agora vieram, como dito, de uma escola européia da escultura. Quais eram as outras vertentes nessa época que vocês eventualmente tiveram acesso?

O Xico tinha uma escultura expressionista, mas o país e o mundo estavam dentro de um minimalismo, como uma corrente geral que andava, e a gente entrou nessa corrente. O meu trabalho no começo foi obviamente mais de modelagem, mais figurativo, espontâneo, algo expressionista. Mas eu fui mesclando com obras minimalistas, fui tentando limpar o meu trabalho diminuindo elementos, detalhes, e fui caminhando desta forma… até hoje.

Esta transição de estilos aconteceu a partir de uma percepção particular?

Eu não diria por uma influência do mundo, mas uma percepção de que aquilo é o que eu gosto de fazer. Eu iria fazer isso de qualquer maneira — talvez levasse dez anos para chegar onde eu cheguei mais cedo — mas eu acho que é assim que as coisas funcionam. Não existe outra forma.

 

Você nunca se considerou pertencente à nenhuma escola, ao longo destes quarenta anos?

Eu não me considero pertencente à escola nenhuma porque faço todo tipo de trabalho. Não tenho preconceito nenhum se é figurativo, se é abstrato, se é conceitual, se tem alguma outra vertente. Minha preocupação essencial é com a minha satisfação naquilo que eu acredito realmente estar fazendo de melhor, e em cima desse material escolhido é que eu trabalho. Então cada época eu estou fazendo alguma coisa (diferente). Às vezes a gente fica num vazio grande, fica pensando, nesse meio tempo faz coisas que já sempre fazia — ou seja, não paro. Por isso não vejo uma escola que possa me colocar dentro de uma jaula fixa.

Hoje você tem sucessores ou pessoas que você se considera uma espécie de padrinho — nomes promissores na escultura paranaense?

Tem bastante gente trabalhando. Durante esses 40 anos do Ateliê passaram mais de 500, 600 pessoas com talento — porque passaram muito mais que isso em número. Mas muitas pessoas são o que são hoje porque tiveram um início no Centro de Criatividade e no Ateliê de Escultura. Nós temos diversos nomes dentro dessa área. Posso falar em Ligia Borba, em Elizabeth Tom, ou Jeferson Santos, o próprio Jeferson Cézar também trabalhou aqui, embora fosse um nome já atuante na época. Outros grandes nomes que passaram por aqui: Laura Miranda, Eliane Prolik, Denise Bandeira, Alfi Vivern, Cláudio Alvares. Todo esse pessoal passou de alguma forma aqui. Temos centenas de outros nomes porque o Ateliê sempre esteve aberto a todo mundo. Tem gente que veio do interior do estado do Paraná, do Uruguai, Paraguai, Argentina… ao longo desse tempo se formou muita gente.

Qual é o seu sentimento com relação ao espaço do ateliê em si e como você enxerga o seu trabalho aqui hoje?

O Centro de Criatividade teve uma importância grande, diria fundamental, numa mudança de paradigmas, numa mudança de cenário cultural na cidade de Curitiba na época de sua implantação. E durante as duas décadas seguintes à sua fundação, especialmente, o Ateliê de Escultura fez parte de todo esse processo, não era uma uma coisa isolada. 

Você já foi premiado muitas vezes em salões nacionais e internacionais de arte. Para um artista, qual a importância de participar de eventos como estes? Quais são suas percepções sobre estas experiências?

O que a gente percebe conversando com artistas estrangeiros é que eles também têm dificuldades de mercado, de se inserir economicamente com atividade na área de artes. Nós aqui também não somos diferentes. Obviamente somos um país mais pobre, não temos a tranqüilidade econômica que se tem em outros países, então nosso trabalho é sempre mais difícil, mais duro, e nem sempre se consegue aquilo que se almeja. Todas as minhas participações em salões internacionais foram porque eu achei que estava na hora de buscar outro tipo de avaliação, mostrar meu trabalho fora do país, e tive sorte de ser reconhecido, de receber prêmio, de poder participar de algumas exposições internacionais, porque eu já tinha tido uma trajetória pelos salões nacionais. Mas é importante sim, o salão, embora haja toda uma carga de crítica e de discussão em cima das propostas (é válido ou não válido?), o salão de arte continua sendo importante, as bienais, os salões estaduais, nacionais. É o momento em que o jovem artista ou o artista profissional pode mostrar seu trabalho. Há uma platéia de entendidos, de curadores, de críticos, e mesmo de fruidores da arte, pessoas interessadas e especializadas. E assim se vê que no Mato Grosso tem gente trabalhando, no Rio Grande do Sul, olha que trabalho bacana, o Paraná está trabalhando… Estamos cada um em seu estado, mas somos artistas brasileiros. E quando saímos do Brasil, somos acima de tudo artistas brasileiros.

Qual é sua relação com a Bienal de Curitiba?

Eu sempre acompanhei a Bienal, e neste último ano (em 2017), fui convidado pelo curador norte-americano Royce Smith, que viu meu trabalho, reconheceu, e me convidou para essa participação. Me senti obviamente honrado. Foi uma satisfação grande apresentar um trabalho novo, de parede, algo que eu não fazia há mais de trinta anos. Resolvi ousar entre relevo, escultura e parede, como se fosse uma pintura. Trabalhei com madeira bruta, com fogo, elementos fortes que fazem parte do meu dia a dia na escultura. Então o que apresentei, embora visualmente possa parecer uma pintura em que você vê nela um recorte, enquadrada em um retângulo e pendurada na parede, na verdade é um relevo, uma proposta diferenciada.

Isso é muito interessante ao público também, que relaciona o seu trabalho muito mais à linguagem da escultura, o seu carro-chefe.

Houve muitos telefonemas de gente que não reconheceu em princípio que era um trabalho meu, mas a partir da constatação da autoria, começaram a reconhecer meu passado e presente no trabalho, o que prova que nada é a não ser a continuidade da gente mesmo. É um trabalho novo e diferente, uma conceituação um pouco fora do que eu costumo fazer, mas a gente carrega todo um passado, toda uma história, um projeto, técnicas e conhecimento em cima desses trabalhos.

Falando em outras linguagens, você também teve um trabalho interessante na adaptação do livro Navio Negreiro, de Castro Alves, para uma espécie de história em quadrinhos em gravura.

A gravura nunca me abandonou ao longo desses anos de escultura. O Centro de Criatividade tinha um grande ateliê de gravura com o Fernando Calderali. Naquela época estive em Porto Alegre fiz um curso de litogravura com o Danúbio Gonçalvez. Na volta, instalamos o ateliê de litogravura aqui no Centro de Criatividade e durante quase um ano eu dei aulas de litogravura. Depois deixei um pouco de lado e assumi quase exclusivamente a escultura. Mas a gravura nunca me deixou. E eu sempre tive uma predileção. Embora conheça tecnicamente o metal, a lito, a serigrafia, e outros métodos de gravação, sempre tive uma paixão muito grande pela xilogravura. Eu gosto do gesto do corte da madeira, eu uso força física, o próprio gesto às vezes reproduz a linha que eu faria em um desenho ou em uma pincelada.

E essa história do Navio Negreiro é uma volta ao passado, uma volta à juventude, na época de escola, quando eu sempre estive ligado às artes de modo mais abrangente, como o teatro, a poesia, a literatura em geral. Eu sempre declamava poesias e o Navio Negreiro era uma das que eu mais gostava de declamar, porque era forte, pungente, tinha uma força e uma emoção violenta. Daí veio a ideia de transformar isso em um álbum de xilogravura. Parti para o álbum, e dali saiu a história em quadrinhos baseada em Navio Negreiro. São 207 matrizes que trabalhei direto, durante oito meses.

 

Em 2017 foi inaugurado no Ateliê um forno de cerâmicas em alta temperatura, o maior do sul do Brasil. Este projeto foi doado pela Universidade de Montana (EUA), que tem professores especialistas em cerâmica, e foi construído sob sua coordenação, por iniciativa da Bienal de Curitiba. Como foi a troca de experiências com a comitiva da Universidade de Montana, que envolveu professores e estudantes?

O mais importante da Bienal de Curitiba em 2017 foi não só o fato de ela trazer e expor trabalhos para as paredes, para as salas e outros espaços alternativos, mas essa possibilidade de interações múltiplas e de trazer elementos culturais e legados que permaneçam na cidade para além do calendário da Bienal. A iniciativa de trazer um grupo de ceramistas liderado por professores da Universidade de Montana para desenvolver e executar um forno de cerâmica de alta temperatura, instalado aqui no Ateliê de Escultura, foi de uma importância ímpar. Eu diria que isso passa a mudar as características da própria cerâmica aqui no Paraná. Porque a tecnicidade, a qualidade visual, os elementos de cor, de textura e a própria dureza do material que esse forno vai trazer para os ceramistas, nós não conseguiríamos de outra forma. A importância dessa ação é que as coisas permanecem, como um legado para a cidade, e vamos sempre dar continuidade aos trabalhos. 

Você tem inúmeras obras espalhadas por pontos públicos da cidade, pontos de transição de pessoas. Há quem reconheça e associe o seu trabalho, outras que não conhecem, mas que estão em contato com as esculturas diariamente, na rua. Como você se sente sua ligação com o espaço urbano e público em Curitiba?

Tenho orgulho de pertencer à cidade de Curitiba através dos meus trabalhos. Tenho obras em diversos lugares, especialmente as esculturas. Mas existe minha mão também em restauros importantes, como o Paço da Liberdade, vitrais de igrejas, o teatro da Capela Santa Maria, o Castelo Lupion. A minha participação como escultor, como artista, como cidadão na cidade é o que me orgulha muito. Me sinto pertencente à cidade desta maneira. E as obras que são espalhadas, tem algumas que são de inteira criação e originalidade minha, outras são esculturas que atendem uma determinada finalidade.

Alguma preferida?

Eu gosto de citar muito a peça que está na Marechal, em frente ao Citibank. Porque foi uma peça que aconteceu tudo de acordo como qualquer artista gostaria que acontecesse. Você escolhe um lugar, tem o tempo necessário para fazer o seu trabalho, você escolhe o material, e tudo corre perfeito que é uma beleza. Em um mundo ideal, gostaria que todos os trabalhos fossem assim, para todos os artistas.

Entrevista por Fernanda Maldonado

Fotografias por Jessica Mirely

Edição de teaser: Jefherson Maiczak e Caroline Francischetti.

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