Diretor da Fototeca de Cuba visita Bienal de Curitiba e fala sobre fotografia contemporânea latinoamericana

Confira a entrevista exclusiva 

Como parte da programação oficial da edição comemorativa da Bienal de Curitiba | 25 anos, o diretor da Fototeca de Cuba, Nelson Arellano, esteve em Curitiba no dia 14 de novembro para participar de uma palestra, que também contou com a presença da curadora Tereza de Arruda, sobre fotografia contemporânea e a relação com as obras de Leonardo Kossoy. Nelson Arellano é um artista cubano que trabalha em Havana, como diretor da Fototeca de Cuba. Ele foi o primeiro curador-chefe dos anos 2000 a 2010 e, de 2010 até hoje, trabalha como diretor do museu. Recebeu o Prêmio Nacional Cubano para a exposição coletiva “A Cidade e a Fotografia, Havana 1900-2005”, em 2006, organizada para a 9ª Bienal de Havana.

Confira a entrevista exclusiva de Nelson Arellano para a Bienal de Curitiba: 

Você poderia resumir um pouco sobre a palestra de fotografia contemporânea cubana e latinoamericana? 

Eu e Tereza de Arruda fizemos uma palestra sobre a relação que existe entre a obra de Leonardo Kossoy e uma parte da produção da fotografia cubana. Na realidade, foi um panorama desde o início da fotografia até a contemporaniedade, fazendo uma ênfase importante sobre a fotografia contemporânea cubana e a relação com a qual chegamos ao corpo nu da fotografia cubana.

Qual a relação disso com a fotografia contemporânea brasileira?

Existem paralelos entre a fotografia contemporânea cubana e a fotografia brasileira. Existem realmente muitos paralelos porque existem paralelos culturais. Podemos encontrar muitos fotógrafos e um muito clássico como Mário Cravo Netto, que tem uma grande relação com René Peña e, inclusive, com outro fotógrafo cubano menos conhecido, José Luis Alvarez Pupo, que tem, realmente, uma grande relação com a obra de Cravo Netto. E existem muitas relações com artistas cubanos e artistas brasileiros, pois são duas culturas muito similares, duas culturas que são resultado da mistura de outras culturas, com um grande componente da cultura europeia e africana. 

Quando a fotografia cubana passou a ser reconhecida fora de Cuba?

Há dois momentos fundamentais na Escola de Fotografia Cubana, quiçá três momentos. Nos anos 40, a fotografia cubana entrou no modernismo, que no caso do Brasil entrou mais tarde, nós entramos muito cedo, fomos os primeiros modernistas ao final dos anos 20. No final dos anos 30, quando se cumprem os 100 anos da fotografia, em 1939, a fotografia cubana teve muita força e ganhava muitos prêmios nos clubes de fotografia que se fizeram em todo o mundo a partir do aniversário dos 100 anos do surgimento da fotografia. E realmente é um momento em que a fotografia cubana sai para o mundo e se vê muito nos Estados Unidos, Canadá, Europa e diferentes lugares. Mas, depois de sair ao mundo no princípio da Revolução, os primeiros anos dos anos 60, por todas as mudanças sociais que ocorreram em Cuba, a imagem de Cuba foi realmente uma coisa muito inaugurosa para o mundo. E houveram muitos fotógrafos com muita qualidade fotográfica em seus trabalhos e imagens que tiveram muita difusão internacional como Alberto Korda, Raul Corrales, Osavaldo e Roberto Salas, Ernesto Fernandez e muitos outros fotógrafos deste momento. 

Depois, houve uma espécie de silêncio por um tempo, bom, não é como se eles não estivessem produzindo, é que realmente eles não tinham tanta difusão. E no princípio dos anos 80, há outro momento em que começa a sair a fotografia ao mundo. E acredito que esse momento tenha sido mais continuado. Isso coincide também com um fenômeno que aconteceu em escala mundial de que, dos anos 1980 para cá, a fotografia tem tido muito mais espaço no mundo da arte com letras maiúsculas. Ela tem sido mais reconhecida nos espaços dos museus e tenho visto que tem a ver mais a sério com a arte. Inclusive, ela tinha começado a alcançar preços em leilões de arte. É um fenômeno que começa no princípio dos anos 80 e, em paralelo a esse fenômeno, começa uma difusão maior da fotografia, quiçá não houve um momento, dos anos 80 para cá em que a fotografia cubana tenha tido menos saída ao mundo, porque realmente a fotografia do mundo inteiro era muito importante e tinha muita difusão. 

Como podemos relacionar fotógrafos estrangeiros que passaram a viver em Cuba?

Bom, há alguns fotógrafos estrangeiros que vivem em Cuba, como é o caso em que mostrei na conferência de Herique Rottenberg, um fotógrafo nascido argentino, judeu e que vive há 25 anos em Cuba, vive como um fotógrafo cubano. É um dos poucos casos de estrangeiros que desenvolvem seu trabalho em Cuba nos últimos anos. Mas sim, há muitos fotógrafos internacionais que fazem o seu trabalho em Cuba. Cuba é um país muito fotogênico, não somente a cidade de Havana, que é uma cidade maravilhosa por ser tão eclética do ponto de vista arquitetônico e muito fotogênica. Cuba inteira realmente é muito fotogênica e muitos fotógrafos vão à Cuba, e é relativamente fácil fazer fotos bonitas em um país como Cuba. E por essa razão atrai muitos fotógrafos. Depois, isso também traz como consequência que muitos fotógrafos trabalham em função de estereótipos criados com relação as imagens de Cuba, mas também há fotógrafos que conseguem encontrar uma Cuba que é novidade inclusive para os cubanos.

Comente um pouco sobre a Fototeca de Cuba, sobre seu acervo e organização

Bom, a Fototeca de Cuba nasce, originalmente, dentro do Museu Nacional de Belas Artes de Cuba. O Museu Nacional de Belas Artes tem uma grande coleção de fotografias e nesse momento começa a descentralizar-se e sai do Museu de Belas Artes quase toda a obra de cerâmica, o Museu de Cerâmica Nacional, e nesse espírito se cria a Fototeca de Cuba, com a intenção de ser o Museu Nacional de Fotografia. E posteriormente, como alguns anos depois, a evolução da Fototeca não acontece no sentido de ser um museu de fotografia, porque mesmo quando se tem uma grande coleção, uma coleção que tem mais de 80 mil peças, de diferentes fototipos e materiais, não evoluiu desta maneira porque não tem uma coleção permanente. Os museus tem de ter uma coleção permanente em disposição de público. No caso da Fototeca, em algum momento se renunciou essa possibilidade e as exposições se tornaram temporárias, visto que são exposições que duram 1 mês, às vezes 2 meses. Se utilizam os fotógrafos da Fototeca, mas são trazidos muitos artistas de fora também.

Quais foram as suas impressões sobre a Bienal de Curitiba?

O Museu Oscar Niemeyer de Curitiba é um edifício impressionante, isso é a primeira coisa que a gente vê. Quando a gente chega aqui, econtra um edifício que é como um olho, ou uma árvore, ou uma árvore-olho. É algo realmente surpreendente, que tem uma grande coleção, e a Bienal é um evento muito interessante para mim. Tem exposições muito valiosas, tem um grande acervo de fotografia, e isso me surpreendeu muito, em uma Bienal de arte, ter a fotografia, que é uma parte das artes visuais e artes plásticas, mas ao mesmo tempo, surpreende quando dá espaço nessa Bienal a obras como por exemplo Piepejé, que é um fotógrafo clássico, um documentarista, que fez a sua obra quase toda nos anos 30 e 70. É realmente algo novo, que em uma Bienal de arte contemporânea, se tome conta a obra de um artista como esse, que apesar do valor que tem, é um valor que não é muito reconhecido. Porque se sente ainda muita tensão no universo da arte, entre a fotografia documental e a fotografia artística, e ainda que isso esteja desaparecendo cada vez mais, o mundo da arte está reconhecendo o valor da fotografia documental cada vez mais. É novidade que uma exposição dessa magnitude, um fotógrafo como Pierre P. No contexto de uma bienal de arte.  

Confira o vídeo feito com Nelson Arellano e Tereza de Arruda sobre a palesta de fotografia contemporânea: 

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *