Posicionamento do curador da Bienal de Curitiba sobre críticas à artista publicadas em coluna do jornal Gazeta do Povo

No dia 09 de dezembro de 2018, o jornal Gazeta do Povo publicou um texto em coluna assinada pelo Senhor Paulo Polzonoff a respeito da obra “Que Soy”, da renomada artista argentina especializada em Public Art Dolores Cáceres. No texto, o colunista questiona os conceitos da obra através de uma apologia à soja e ao agronegócio, com reduzidos embasamentos teóricos no campo da arte e também frágeis embasamentos econômicos, sempre a partir de uma perspectiva de convicções bastante pessoais. A obra “Que Soy” consiste em uma pequena plantação de soja, localizada no gramado do Museu Oscar Niemeyer  – uma das sedes da celebração dos 25 Anos da Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba – e levanta reflexões acerca dos impactos causados pelo agronegócio em aspectos ambientais e sociais.  

A Bienal de Curitiba gostaria de esclarecer ao colunista do jornal, aos leitores e ao público em geral que o Museu Oscar Niemeyer é uma importante sede do evento, entretanto, a Bienal não é um evento exclusivo do MON, conforme afirmado erroneamente pelo colunista, tampouco conta com a curadoria contratada pelo museu. O curador da Bienal de Curitiba 2018 | 25 Anos, Ticio Escobar, redigiu uma breve nota para esclarecer alguns pontos levantados pelo colunista.  Ticio Escobar foi curador da Bienal Internacional de Arte de Veneza (Itália), Bienal Internacional de Arte de Valência (Espanha), da Trienal Internacional de Arte do Chile, da Fondation Cartier em Paris (França). Também é professor universitário, crítico de arte, promotor cultural e diretor do Museo del Barro, em Assunção (PY), membro do Conselho de Doutorado em Filosofia na área de Estética e Teoria da Arte da Universidade do Chile. Publicou vários títulos sobre arte latino-americana e ganhador de inúmeros prêmios internacionais. 

Confira abaixo a nota do curador Ticio Escobar na íntegra:

“A diferença entre manifestação artística e panfleto político-partidário-ecochato é que a arte nunca levanta literal e diretamente uma denúncia, mas desperta questões, reflexões e sonoridades a partir do rodeio de uma ação, provocativa, neste caso. A obra artística não busca provocar para incidentar, importunar ou introduzir à uma ação, mas para tornar-la complexa. Esta é a diferença de uma obra de arte: levanta questões, levanta perguntas e suspende a significação fixa das coisas. Por isso não é um panfleto. A arte não é uma boa mensageira de uma consigna “política-partidária” porque faz duvidar das coisas. Mikel Dufrene, o grande filósofo francês, disse que “a arte é o arauto de uma mensagem impossível”. Questiona as coisas, os feitos, os acontecimentos, mas localizando-os em uma perspectiva aberta ao debate, à discussão, à interpretação completa do que mostra. Nunca pretende explicar nem transparentar tudo. 

Dolores Cáceres faz arte, não panfleto. Toma posição, não partido. Localiza-se diante de um feito que gera grandes ganâncias econômicas, e também provoca importantes conflitos ambientais. Ambas as situações não são inventadas por ela: são temas que aparecem diariamente nos meios de comunicação e nos estudos especializados. O que ela faz é tomar este tema candente e convertê-lo em forma estética, em expressão, em poesia, e, a partir destas operações, gerar a discussão livre e o debate. 

A Bienal está aberta, sem censuras nem repressões, a todas as obras providas de qualidade estética e conteúdos intensos, fortes. A arte não está para tranqüilizar, mas para renovar a inquietude e o assombro do mundo: para impedir que as significações sociais se estanquem e apaguem a magia do sobressalto, da surpresa, e ainda, do alarme e da maravilha do que não possui uma só resposta, nem uma só leitura. O que se afirma mais além de qualquer dogma”. 

Ticio Escobar 

Curador da mostra de Dolores Cáceres, apresentada pela Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba no Museu Oscar Niemeyer.   

3 pensamentos sobre “Posicionamento do curador da Bienal de Curitiba sobre críticas à artista publicadas em coluna do jornal Gazeta do Povo”

  1. A artista enfoca de protagonizar a sua obra com o tema plantio do soja sem querer desmerecer ou de dar a menor importância do. agronegocia.
    Referimos assim a liberdade da artista com a sua arte.

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