Entre narrativa e desejo, a fotografia

Mostra "Only You" de Leonardo Kossoy

“Narrativa”, “narração” e “narrar” vêm do latim “narrare”, que significa “contar” ou “relatar”, ações intrinsecamente ligadas ao ato de fala: narrar uma história, relatar um fato, contar um segredo. Com a literatura, os jornais e toda a variedade de texto impresso, o conceito mudou um pouco. Todo tipo de história agora poderia ser feita de tinta impressa no papel, escrita, copiada, editada. Infinitamente mutável e mudando constantemente. 

Por outro lado, não tão latina, tem-se fotografia. Do grego, photo significa luz e “grafia” vem de graphos, que quer dizer escrita. Literalmente falando, fotografia é uma forma de se  escrever com luz. Escrever histórias, guardar lembranças, segurar firme uma realidade que só existiu por alguns milésimos de segundo, mas que terá uma longa vida. 

Primeiro registro fotográfico, feito por Joseph Nicéphore Niépce

No dia 8 de janeiro comemora-se o Dia do Fotógrafo, porém, o caminho da fotografia desde seu início até como a conhecemos hoje foi longo. Seu primeiro registro foi em 1826, feito pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, a partir da exposição de uma placa de estanho coberta com betume à luz do sol durante 8 horas. Mesmo com algumas evoluções, o tempo de exposição nos primeiro estágios de desenvolvimento da fotografia ainda eram enormes, o que resultava em fotos normalmente sem foco e com o que hoje chamamos de “vultos”.

E, uma vez que para uma simples fotografia eram necessárias horas desde a abertura do obturador até seu fechamento, fotos em família eram raras, viagens só existiam na memória e sentimentos no coração. A ressignificação da fotografia veio junto com seu avanço e seu teor sentimental teve as mãos atadas à instantaneidade. 

 

Entusiasta do momentâneo, Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês, é hoje mundialmente famoso por sua capacidade única de congelamento do tempo no momento exato em que nada acontece, mas está tudo prestes a acontecer. Uma das propriedades mais genuínas da imagem vive na imaginação que ela desperta em quem vê e Cartier-Bresson insinua constantemente os próximos passos de seus personagens sem nunca revelar com certeza. Em seu trabalho, a fotografia se mantém viva na dúvida. 

Vivian Maier também foi uma fotógrafa de rua, retratando ambientes e personagens urbanos. Apesar de possuir um vasto acervo – aproximadamente 100.000 fotografias – e da qualidade delicada de suas fotografias, teve sua obra guardada por muito tempo. Maier foi babá por 40 anos e usava seu tempo livre para retratar as ruas de Nova Iorque e sua relação com elas. Sua obra só foi divulgada em 2007, dois anos antes de seu falecimento.

Além da sentimentalidade individual, a fotografia faz seu nome com o impacto que gera em um mundo coletivo, que compartilha, além de momentos-momentâneos, longos períodos sombrios de guerras, fome e miséria. Robert Capa, Dorothea Lange, Emily Bourke-White e Sebastião Salgado, além de fotojornalistas que retrataram essa máquina do mundo, são apenas alguns exemplos de grandes contadores de histórias. 

Fotografia de Vivian Maier
Mãe migrante - Fotografia de Dorothea Lange
Derrière la Gare Saint-Lazare - Fotografia de Henri Cartier-Bresson

Contudo, todas as histórias luminosas existentes até hoje não foram escritas apenas graças ao desenvolvimento técnico da fotografia. A estética, assim como na pintura e no cinema, foi sendo desenvolvida, vanguarda após vanguarda, absorvendo referências e agregando novos olhares.

Um dos artistas participantes da Bienal de Curitiba 2018 | 25 anos é Leonardo Kossoy, paulistano formado em direito que se deixou levar pela arte fotográfica. Ele, assim como diversos fotógrafos, encara a cada clique a impossibilidade de dissociar influências literárias, artísticas e geográficas que foi recolhendo pelo caminho. Artista viajante, possui diversos trabalhos realizados no mediterrâneo, como a exposição “Desoriente: O Eu Nômade”. A obra de Jorge de Lima é outro grande guia de suas criações, além de artistas como Caravaggio e seus claros-escuros e Francis Bacon com seus corpos distorcidos 

Obra da mostra "Desoriente: O Eu Nômade" do artista Leonardo Kossoy

A mostra de Kossoy traz para a Bienal de Curitiba quatro segmentos de seu trabalho, com fotografias que compõem os projetos “Waterscapes”, “Only You”, e os inéditos “Caindo no inferno da Imagem” e “Inventário do Mundo”. Cada uma com sua particularidade, formam um conjunto que conversa com cada voz que Kossoy imprime em suas fotografias.

Em novembro de 2018 aconteceu no MON – Museu Oscar Niemeyer uma palestra sobre Fotografia Contemporânea com base nas obras de Leonardo Kossoy com Tereza de Arruda, curadora da exposição do fotógrafo que fica em exposição no MON até o dia 10 de março, e Nelson Arellano, Diretor da Fototeca de Cuba. Em entrevista para a Bienal de Curitiba, ambos comentam sobre a importância de suas obras e sobre a relação que pode ser feita entre a fotografia de Kossoy com uma parte da produção fotográfica cubana.

O olhar poético, a interdisciplinaridade artística implícita e cliques certeiros denotam a preocupação e dedicação com que cada projeto de Kossoy é desenvolvido. E, para ele, além de pensar sobre a fotografia, desejá-la também é essencial. “Você fotografa o que deseja, só vê e se dá ao trabalho de enquadrar se for a imagem do seu desejo”, argumenta o artista.

 Sobre a Bienal de Curitiba   

A Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba é um dos principais eventos de arte do circuito mundial. A Bienal está com uma edição especial de 25 anos e em comemoração e conta com diversas exposições e atividades em museus e outros espaços culturais da cidade. 

Para saber mais sobre as atividades propostas nesta edição da Bienal de Curitiba | 25 anos, basta acompanhar a página oficial do evento no Facebook  Instagram.

 

1 pensamento sobre “Entre narrativa e desejo, a fotografia”

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *