É ano novo do outro lado do mundo

É comemorado hoje, 5 de fevereiro, mais um ano novo chinês

Entre diversas demarcações e territórios, o mundo, num sentido geral, se apresenta como dois. O que conhecemos é dividido por diferenças culturais explícitas e talvez até um pouco instintivas. Do lado de cá, lemos letras. Do lado de lá, interpretam símbolos. Aqui, ocidente, occidens, somos pôr do sol. Lá no ocidente, oriens, chega sempre um novo dia – nasce o sol. Lá é tudo o outro lado do mundo, e aqui também. 

Além das diferenças geográficas, nossos tempos passam de maneiras distintas. Levando em conta a China, temos a clássica dicotomia meio-dia-meia-noite, mas também temos os milhares de anos dividindo nosso ano de 2019 com a data do calendário chinês, que comemora hoje seu ano novo e faz a passagem para o ano de 4717. 

O calendário chinês, diferentemente do Gregoriano usado no ocidente, é lunissolar. Ou seja, ele utiliza como marcação do tempo as fases da lua e a posição do sol. O seu ano novo não acontece a cada 365 dias, mas sim durante a noite de lua nova mais próxima do dia em que o sol passa pelo 15° grau de aquário. 

Para os seguidores do calendário chinês, não é a passagem do tempo que dita mudanças, mas sim a própria mudança do espaço e seus astros que interferem na contagem do tempo. De certa forma, o tempo continua sempre o mesmo, estático, e somos nós que passamos por ele.

A data, além de marcar o fechamento de um ano e início de outro, faz parte do ciclo de 12 anos correspondente aos signos astrológicos chineses. Cada um dos 12 signos é representado por um animal diferente (rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, cabra, macaco, galo,cão e porco), os quais teriam sido os únicos a atenderem o chamado de Buda para uma reunião.

E nesse rito de passagem, um fator muito significativo nas tradições chinesas durante o ano novo é a língua, ou melhor, a fala. Muitos dos costumes hoje tidos como tradição provém da pronúncia de certas palavras, ou até mesmo a entonação dada ao falar. O símbolo Fú em chinês é exibido nas entradas das casas na cor vermelha, normalmente de cabeça para baixo. Isso porque Fú significa bênção, felicidade e o carácter dào (“de cabeça para baixo”) é homófono de dào (“chegar”), simbolizando a chegada da felicidade, sorte e prosperidade.

Em 2018, a Bienal de Curitiba recebeu em sua programação a exposição “Dragão Floresta Abundante” do artista plástico Christus Nóbrega. O título do projeto foi dado em homenagem ao nome que o artista recebeu em sua viagem à Pequim, no qual “Dragão” provém do seu nascimento em 1976, ano regido pelo dragão de acordo com o horóscopo chinês.

Em consonância com as tradições chinesas, Nóbrega também usa a língua em sua exposição. Juntamente com fotografias de chineses e chinesas, o artista apresenta ideogramas traduzidos com suas respectivas traduções e origem de alguns substantivos.

 

Um dos guias para a criação e desenvolvimento dessa exposição também tem relação com essa cultura. O idioma analítico de John Wilkins, conto de Jorge Luis Borges, fala sobre o Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos, uma enciclopédia chinesa que discorre sobre uma possível classificação de todos os animais possíveis. 

O livro de fato não existe, mas a busca de Christus por ele simboliza muitas das coisas que o artista procurou transmitir em sua obra. “Esse conto é um texto curto, mas um texto com uma potência de entendimento de mundo muito grande, falando sobre as arbitrariedades de qualquer tipo de classificação e consequentemente das arbitrariedades simbólicas, as arbitrariedades da vida (…) quando eu saí do Brasil o que eu tinha em mente era a busca pela enciclopédia, que é uma busca pelo desconhecido e pelo imaginário, essa busca utópica pela ficção”.

O artista morou em Pequim por apenas 2 meses e não passou por nenhum ano novo chinês. Além disso, foi até lá, lá onde é o outro lado do mundo e onde meio dia é meia noite, apenas arranhando mandarim. “A linguagem foi uma grande barreira, mas são nesses momentos que eu fiz um exercício interessante de me sentir perdido, o exercício de você olhar para uma placa e não fazer a menor ideia do que ela representa. E ao mesmo tempo que ela te traz uma angústia ela também é libertadora. Então eu vivi o tempo inteiro esse dilema da angústia e da liberdade por conta da língua”.

 Apesar disso, desenvolveu um trabalho extenso sobre a cultura chinesa tanto em Dragão Floresta Abundante quanto em outras exposições como A roupa nova do Rei, sempre abordando, mesmo que sutilmente, temas como a astrologia, a situação política do país através da arte contemporânea. As referências usadas pelo artista são das mais variadas, sempre buscando entender um pouco mais sobre o povo do qual está falando. E, assim como a cultura chinesa, suas obras são permeadas por simbolismos “Nesse próprio trabalho aparecem os papéis de estudo de caligrafias e é sobre eles que imprimo as fotografias. No empório celestial há inúmeros objetos arqueológicos que foram garimpados na china. Tem as histórias em quadrinho, os livros de conto, referência à arte contemporânea chinesa, os artistas, o Ai Weiwei. As pipas que foram inventadas pelos chineses, a muralha da china, o vermelho, o livro de Mao…”. 

Daqui do ocidente, A Bienal de Curitiba deseja um feliz ano novo à todos que o comemoram hoje. E lembrando que a exposição Dragão Floresta Abundante permanece em exposição até o dia 10 de março no MON – Museu Oscar Niemeyer.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *