A guerrilha tem rosto de mulher

Colagem feita por Vanessa Fogaço

A  história como contada  é, e talvez sempre tenha sido, em linha reta. Nela a humanidade foi capaz de catalogar o tempo, limitar o espaço, criar fatos – e apagar outros. Mas mais importante: selecionar personagens. Em sua maioria homens, em sua maioria andando numa reta sólida, bem demarcada, fixa, bem rente ao chão. Porém, essa limitada projeção palpável sobre o tempo, essa tal linha, para mulheres se tornou corda bamba.

Equilibrando-se aqui e acolá, mulheres trilharam seu caminho árduo e invisível sempre à direita do todo poderoso homem. Tiveram terror de sua fisiologia cíclica, de sua liberdade vermelha e da maçã selvática que despertava o mais delicioso pecado. Sua história tem sido recuperada não faz muito e só agora vê-se que, mesmo nos mais remotos dos tempos, ainda quando tempo nem era linha, a história podia ter rosto de mulher.

Esse agora, contudo, é um tempo de muitos anos. Fala-se agora por comodidade desta linha, por exacerbação do presente, mas se hoje chamam mulheres históricas pelo nome, foi em decorrência de movimentos feministas que ocorreram há muito tempo em prol da memória.  

Não se sabe ao certo quando foi comemorado o primeiro dia das mulheres, comprovando a existência maleável da linha, porém, os primeiros registros são em 28 de fevereiro de 1909, nos Estados Unidos. Em consequência, nos anos que seguiram a data houve diversas manifestações e marchas tanto nos EUA quanto em outros países europeus reivindicando o direito ao voto e  melhores condições de vida e trabalho.

Décadas mais tarde, em 1975, a ONU declara 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Nesse momento já haviam passado pela história diversos movimentos sociais e políticos que visavam uma maior igualdade entre homens e mulheres como as sufragistas, por exemplo. Àquele tempo, ser mulher e encarar tal natureza com fervor e orgulho, era com certeza transgressor. Mas foi só o ponto de partida dessa linha bidimensional, onde só se poderia ir para frente. 

Hoje muita coisa mudou, é claro, e a evolução foi drástica levando em consideração o curto espaço de tempo no qual ela se deu. Mas não é o suficiente e, ao passo em que a sociedade moderna se desenvolvia, essa luta por igualdade foi se ramificando e questionando setores além-política tradicional, e a arte fez parte dessa guerrilha. 

As Guerrilla Girls 

O grupo Guerrilla Girls nasceu em 1984 como um movimento artístico sócio-político que luta pela valorização da mulher artista e levanta questionamentos sobre a visibilidade que elas tem dentro da lógica mercadológica de compra e venda de obras de arte e exposições em museus.

Guardando suas identidades por trás de máscaras de gorilas, as participantes do grupo alegam que seu ativismo não serve para focar em quem está lutando pela causa, mas sim a causa em si. Durante os anos mais de 55 pessoas já passaram pelo grupo, algumas por apenas algumas semanas e outras durante anos, contudo, mas ninguém nunca soube quem está por trás das máscaras. 

Em 2017, sua exposição foi feita na Bienal de Curitiba com seus trabalhos mais icônicos. Para abordar seus posicionamentos, as Guerrilla Girls utilizam muito o estilo “panfleto” e seu trabalho mais conhecido é inspirado na obra “A grande Odalisca” de Jean-Auguste-Dominique que faz crítica à representatividade feminina e sua objetificação dentro dos museus. Mulheres servem para serem musas. Podem ser arte, mas não artistas.

De volta a linha do tempo, o que é rebatido pelas Guerrilla Girls é apenas a ponta do iceberg. Como a história já provou ser falocêntrica, a arte por consequência também é. Nomes como Frida Kahlo, Camille Claudel e Lee Krasner que são apenas alguns exemplos de artistas brilhantes que tiveram o desprazer de ter casado com homens colegas de profissão e verem seu trabalho preterido apenas por serem o segundo sexo.

Integrantes do grupo Guerrilla Girls
Do women have to be naked to get into the Met. Museum?, 2012, paper poster Unless otherwise noted, all work is by the Guerrilla Girls and is copyright © Guerrilla Girls and courtesy of guerrillagirls.com

 

Por ser um movimento anônimo, cada ativista atribui a si mesmo o nome de uma grande artista que fez história por seu grande trabalho artístico ou pelo simples fato heróico de sobreviver nessa corda bamba apesar dos anos. Visionárias por natureza, desde que  mundo é substantivo masculino mulheres lutaram por um futuro melhor, sempre um passo à frente. Homem é clássico, ser mulher é contemporâneo. E viva a arte! 

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *