Curadora da 14ª Bienal de Curitiba, a historiadora da arte Gabriela Urtiaga fala um pouco sobre a exposição “As Linhas do Ritual”, presente na Sala 11 do Museu Oscar Niemeyer em Curitiba.

Até metade de 2018, Gabriela Urtiaga esteve à frente do Centro Cultural Kirchner em Buenos Aires como curadora chefe de Artes Visuais e atualmente é curadora chefe do MOLAA (Museum of Latin American Art) em Los Angeles, Califórnia. Sua curadoria na Bienal de Curitiba apresenta narrativas contemporâneas através de obras de artistas contemporâneas argentinas. Todas elas trabalham distintas possibilidades dentro dos conceitos de arte e feminismo.

Confira a entrevista gravada com Urtiaga em julho de 2018, em Buenos Aires.

As linhas do ritual

Em algum ponto impreciso da história, encontramos outra história. Uma busca comum expressada em pontos, linhas, texturas entrelaçadas e movimento. Um ritual que hoje se mostra muito mais nítido, necessário; que fala sobre um modo único de ver e questionar o mundo.

As linhas do ritual tem como proposta delinear uma narrativa construída pelo trabalho de oito artistas mulheres que, com poéticas muito pessoais, desmontam e decompõem a história da tradição para reconvertê-la em uma interpelação urgente sobre o feminino, a relação com os materiais, o acidental, a mudança e o inalterável. O uso da trama como meio e patrimônio assume, nas mãos dessas mulheres artistas, uma dimensão conceitual muito poderosa, desafiando limites e colocando um discurso preconcebido e esgotado (ainda mais) em crise.

Os utensílios domésticos de Marisa Caichiolo com a intervenção de seus próprios cabelos; as telas e bordados de Catalina León, que habitam os espaços; as cortinas de contas infinitas de Diana Aisenberg; os novelos tecidos de Teresa Pereda; as caligrafias têxteis de Inés Drangosch; a luta com os materiais macios com que Elena Dahn trabalha; os artefatos têxteis  cheios de movimento de Inés Raiteri; e o uso das artes ornamentais no desenvolvimento da linguagem abstrata de Karina El Azem são transformados em uma trama polissêmica de rara beleza, imediata, mas ao mesmo tempo distante.

Linhas, contornos e dobras que desenham mapas de significado, onde o frágil também pode ser de ferro; e o etéreo, teimoso e transcendente. Há uma clara decisão artística ao se expressar uma ideologia pessoal através do trabalho direto com o material – onde a vida cotidiana e a operação manual têm um peso definitivo no bordar, no alinhavar, na sobreposição de pigmentos; tudo sob diferentes suportes, linguagens e sob uma ação física que reiteradamente transborda usos, papeis e costumes.

Um jogo onde o acessório e o decorativo repentinamente ganham centralidade em um exercício de prática contemporânea que dialoga com o artesanal para definir uma matriz cultural muito mais aberta, em movimento, que fala do nosso tempo, do nosso fazer como mulher, que funciona como uma ferramenta de transformação social.

Gabriela Urtiaga

Curadora