Definido o título da Bienal de Curitiba 2017: “Antípodas – Excesso de Imagem”

A Bienal acontecerá entre os dias 30 de setembro de 2017 e 25 de fevereiro de 2018. A edição comemorará 24 anos de fundação e trará a China como país homenageado.

Confira abaixo o texto curatorial da Bienal de 2017, escrito por Tício Escobar.

 

Antípodas

Excesso de imagem
Introdução

O termo “Antípodas” refere-se a posições diametralmente opostas entre si. Nesta Bienal, este título foi escolhido para indicar metaforicamente pontos geográficos radicalmente distantes uns dos outros. A China, país homenageado desta bienal, marca um ponto extremo, especialmente em relação aos países latino-americanos. No entanto, a cultura, especialmente em suas manifestações artísticas, tem a possibilidade de criar vínculos e traçar diagramas entre os lugares mais distantes. A imagem é, por antonomásia, um dispositivo capaz de unir pontos distantes. A ideia de diversidade, um dos pontos centrais desta bienal, é reforçada através da vinculação de zonas e situações opostas que coincidem sem arriscar suas respectivas diferenças.

O subtítulo “Excesso de imagem” faz referência ao fenômeno contemporâneo da pós-fotografia, outro dos temas tratados nesta bienal. A produção de imagens digitais é hoje superior à capacidade de sua recepção e uso. A visão é confrontada com um excesso de informação visual que ultrapassa sua capacidade de assimilação. Esta situação é enfrentada pela arte contemporânea através de várias estratégias que superam o meio fotográfico convencional e exigem soluções para além da fotografia – o que poderia ser qualificado como “fotografia expandida”, atravessada por diferentes técnicas e baseada em reforços conceituais variados.

 

Texto

O projeto original da curadoria começou na figura da diversidade. A diversidade se refere à multiplicidade dos sujeitos criadores diferentes; por exemplo, artistas eruditos, indígenas, populares. Este termo também se refere a diversidade de culturas produzidas em regiões e continentes distintos. Mas também inclui a interação de meios expressivos e criativos: o audiovisual, o cinema, a fotografia, a net arte, os objetos e instalações, assim como os meios tradicionais de produção estética, como a pintura, o gravado, o desenho, etc.
Deste modo, o conceito da Bienal destaca duas questões relativas a figura da diversidade. Por um lado, a diversidade de culturas e, por outro, a diversidade de meios técnicos. Em ambos casos, trata-se de cruzar as fronteiras que separam diversas áreas: ir além das posições fechadas, seja em torno de um modelo cultural ou a partir de um meio técnico diferente.

Sem descuidar a questão de diversidade cultural, o tema desta bienal foca nos meios de produção de obra, especificamente da fotografia, que tem adquirido uma presença privilegiada no panorama das artes contemporâneas.
Deste modo, a curadoria da bienal parte da figura de fotografia expandida, ideia que contesta a autonomia formalista que torna fetiche o meio técnico. A crítica desta autonomia constitui uma das características mais notáveis da arte contemporânea, enriquecida com cruzamentos e montagens de tempos diferentes, e impulsionado por movimentos de expansão e contaminação. A arte atual combina com ousadia diferentes meios, atravessando em diagonal o campo da fotografia, o cinema, as instalações, as performances, e ainda os procedimentos tradicionais, como a pintura e o desenho; mas também articula o cruzamento de outras disciplinas, como a literatura. Todos estes meios conformam constelações que reativam de diferentes modos os processos de significação social.

A partir desta perspectiva, a fotografia é um potente dispositivo de produção de imagens, porém, em mãos de um criador contemporâneo, perde o medo de contaminar a sua pureza formal e se converte em um meio de expressão contingente, aberto ao convívio com expressões híbridas. Resulta, porém em uma auto limitação desnecessária ao ato de submergir-se na particularidade dos meios técnicos para evitar a contaminação de manifestações plurais, cuja conjunção possa enriquecer as diferentes cenas da arte e da cultura. A produção de obra e o pensamento centrado na particularidade técnica da fotografia podem resultar produtivos enquanto não signifique a reclusão do meio fotográfico em um círculo hermético: seu aprisionamento em um claustro moderno protegido das impurezas das diferenças.

Esta bienal tomará como ponto de partida a fotografia para analisar seu potencial conceitual, expressivo, crítico e poético especialmente enquanto cruzado com os outros meios. Porém também poderá partir diretamente de outras expressões com tendências ao cruzamento com a fotografia e desafiem seu encapsulamento.
Tal como dito anteriormente, a reflexão sobre os limites da fotografia se cruza nesta bienal com o pensamento acerca dos limites entre as culturas. Estes limites nunca são definitivos e representam cruzamentos de ida e volta, encontros plurais e sinergias criadas pelo confronto de pontos distintos, distantes, inclusive colocados contra os outros. Segundo Deleuze, a transversalidade atua unindo as diferenças. E isso significa também, aproximando as distâncias: a Bienal de Curitiba 2017 fará uma homenagem especial à arte da China, país convidado de honra não só por simbolizar a distância que deve ser superada na arte, mas sim pelo reconhecimento ao enorme valor da arte chinesa contemporânea.

 

Tício Escobar
Curador

 


 

Antipodes
Profusion of image

 

Explanation
The name “antipodes” refers to positions that are situated diametrically opposite to one another. This title was chosen for this Biennial to metaphorically indicate geographical points radically distant from one another. China, the honored country at this biennial, defines an extreme point especially in relation to Latin American countries. However, culture, especially in its artistic manifestations, has the possibility of creating links and drawing diagrams between the most distant places. Image is, by antonomasia, a device capable of joining distant points. The idea of diversity, one of the focal points of this biennial, is reinforced by the connection of zones and situations that are opposites but overlap without risking their differences.
The subtitle “Profusion of image” refers to the contemporary phenomenon of post-photography, also one of the themes of this biennial. The production of digital image today is superior to the capacity of its reception and use. Our vision is confronted with a profusion of visual information that surpasses its capacity for assimilation. This situation is faced by contemporary art through different strategies that overcome the scope of conventional photography, requiring solutions beyond it – what could be qualified as “expanded photography”, crossed by different techniques and based on varied conceptual reinforcements.

 

Text

The original curatorial project has started with a diversity concept. Diversity here refers to the multiplicity of different creative beings, like erudite, indigenous, and popular artists. This expression also refers to the diversity of culture produced in different regions and continents. On the other hand, it also includes the interaction between expressive and creative means such as audiovisual, cinema, photography, Internet art, objects and installations, as well as the traditional means of aesthetic production, such as painting, engraving, drawing, etc.

In this way, the concept of the Biennial highlights two issues related to diversity. On the one hand, the diversity of cultures and, on the other, the diversity of technical means. In both cases, it is a matter of crossing the frontiers that separates several areas: going beyond enclosed positions, whether it is around a cultural model or from a different technical mean of production.

Without loosing track of the cultural diversity, the theme of this Biennial is focused on the production means of artwork, specially photography, which has been acquiring a privileged presence within the contemporary arts panorama.

That is why the Biennial’s curatorship begins with the expanded photography concept. This idea challenges the formalist autonomy that turns technical environment into a fetish. One of the most remarkable characteristics of contemporary art is precisely the criticism of that autonomy.  Contemporary art has been enriched with crosses and compositions of different times, and driven by movements of expansion and contamination. Today’s art boldly combines different means as it crosses not only photography, cinema, installations, and performances diagonally, but also traditional
procedures, like painting and drawing. It also articulates the intersection of other disciplines, such as literature. All of those production means form constellations that reactivate social signification processes in different ways.
From this perspective photography is a powerful device for producing images. The fear
of contaminating its formal purity is lost, though, when it’s in hands of a contemporary creator. That’s when the photography becomes a mean of contingent expression, open to live together with hybrid expressions. Nevertheless, it is an unnecessary self-limitation to submerge oneself in the particularity of technical issues to avoid the contamination by plural manifestations. Actually, the conjunction of those manifestations can enrich different scenes of art and culture. Work of art production and a thought centered on technical particularity of photography can be productive as long it doesn’t mean its reclusion in a hermetic circle. In other words, an entrapment in a modern cloister protected from the impurities of differences.

Therefore, this Biennial will take photography as a starting point to analyze its conceptual, expressive, critical, and poetic potential, specially when crossed with other art forms. However, it may also start directly from other expressions that tend to interact with photography and which challenge its encapsulation.
As previously mentioned, the reflction on the limits of photography in this Biennial intersects the reflction on the boundaries between cultures. These boundaries are never fial and they represent round trips, plural encounters and synergies created by the confrontation of distinct and distant points. According to Deleuze, transversality works by uniting the differences. And that also means to bring distances closer together: The Curitiba Biennial 2017 will pay a special homage to the art of China, our guest of honor not only for symbolizing the distance that must be overcome in art,
but also for the recognition of the enormous value of the Chinese contemporary art.

 

Tício Escobar
Curator

 

China será o país homenageado da Bienal de Curitiba 2017

Apresentado pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Lei Rouanet, o evento ocorrerá entre 30 de setembro de 2017 a 25 de fevereiro de 2018. O anúncio oficial foi feito na última semana pelo Ministério da Cultura, onde o Ministro Roberto Freire esteve reunido com o vice-ministro da Cultura da China, Yang Zhijin, com os organizadores da Bienal de Curitiba; Luiz Ernesto Meyer Pereira e Luciana Casagrande; o Secretário de Estado da Cultura do Paraná, João Luiz Fiani, e a diretora-presidente do Museu Oscar Niemeyer, Juliana Vosnika.

Da esquerda para a direita, vice-ministro Yang Zhijin, Luciana Casagrande Pereira, presidente da Bienal, e Luiz Ernesto Meyer (Foto: Guto Moraes/Ascom MinC)

Da esquerda para a direita, vice-ministro Yang Zhijin, Luciana Casagrande Pereira, presidente da Bienal, e Luiz Ernesto Meyer (Foto: Guto Moraes/Ascom MinC)

A Bienal de Curitiba 2017 promoverá a Arte Contemporânea, o Cinema e a Literatura, contando com a presença de artistas do Brasil e de países dos cinco continentes, ocupando diversos espaços da cidade.

Saiba mais: http://bit.ly/2lwEh3c