Cinema na Praça e os filmes escolhidos


Para o Projeto Cine Móvel – Festival de Cinema da Bienal de Curitiba, a Curadoria considerou três aspectos relevantes na seleção de filmes. A primeira preocupação foi a exibição em praça pública, que convida adultos e crianças, o que requer filmes que possam ser vistos por famílias e por pessoas de todas as idades. Considerando que não há salas de cinema nas cidades onde o Cine Móvel será mostrado, o segundo requisito foi mostrar filmes dificilmente são exibidos em canais da TV aberta. A última, mas não
menor atenção, foi contemplar todas as idades, fazendo com que os espectadores se sintam representados. Seguindo um dos requisitos constantes do FICBIC, os três filmes selecionados já foram premiados em festivais internacionais.  

 

 

 

 

 

Os três filmes selecionados preenchem os requisitos propostos.  “Benzinho” mostra uma família que luta pelos seus ideais, com pais preocupados em proporcionar o bem-estar de seus filhos. Apesar dos problemas enfrentados, a família continua unida e a esposa defende também sua amiga, que infelizmente não consegue o mesmo ambiente familiar.  “Pela Janela” expõe uma situação que é vivenciada por pessoas que se dedicam aos seus empregos e se sentem deprimidas quando são demitidas. No caso da protagonista, a viagem proporcionada por seu irmão faz com que ela conheça outros lugares e situações que permitam uma melhor compreensão sobre seus problemas. “O que queremos para o mundo” é sobre o universo de adolescentes na escola, onde devem fazer um trabalho sobre o que querem para o mundo. O resultado se traduz em duas palavras-chave, “Amor e Polifonia”, que traduzem os sentimentos das quatro alunas que representam muitas outras na produção do filme.

 

Os três filmes têm ao menos três pontos em comum: amor, polifonia e natureza.  O primeiro sentimento, “amor”, em “Benzinho”, é partilhado pela família em diversas situações e sob diferentes prismas, refletindo o amor entre o casal, o amor dedicado aos filhos e o amor demonstrado pela amizade.  Em “Pela Janela”, o amor fraterno entre Rosália e seu irmão leva o road-movie a se tornar uma trajetória de autoconhecimento. “O que queremos para o mundo” é um filme que fala de amor em sentido mais restrito, levando o entendimento entre professor e alunas a ser o fio condutor de uma possibilidade de aceitação entre as alunas que devem, juntas, executar uma tarefa escolar.

Nos filmes selecionados, há uma polifonia de vozes, como o conceito de Bakhtin, que fala de vozes que concordantes e discordantes que dialogam em harmonia. O maior número de vozes está presente em “Benzinho”, onde as vozes materna e paterna se alternam com a do filho adolescente, a dos filhos menores e até com o marido da amiga que causa problemas.  Em “O que queremos para o mundo”, o desenrolar das cenas é narrado pela protagonista, mas há seis vozes que se alternam e tentam se compreender: a mãe, o professor e as quatro colegas que, ao final, mostram ser vozes polifônicas em harmonia. Em “Pela Janela”, há duas vozes que começam a se conhecer melhor: a da protagonista e de seu irmão. Contudo, há uma voz mais forte, que faz com que Rosália comece a se conhecer melhor e a interagir com o meio ambiente: é a voz das cataratas, das águas fortes e ruidosas, que fala alto e a envolve, permitindo que ela se entregue em um momento de comunhão com a natureza.

A natureza, representada pela água, tem também um papel predominante nos outros dois filmes da seleção.  Em “Benzinho”, a água do mar, da praia, tem o dom de fazer com que a família possa viver momentos de descontração,  enquanto a água da torneira da casa representa um problema difícil de ser superado. Assim, a água ao mesmo tempo representa uma preocupação na rotina diária e superação nos momentos de distração e lazer da família.  Em “O que queremos para o mundo”, a água tem papel preponderante. A protagonista, já no início do filme, metaforicamente se lança na piscina, como se a água pudesse ajudá-la a superar seus problemas e a se expressar mais livremente. A água, como elemento natural e presente nos três filmes, parece contribuir para a superação de problemas e permitir que as diversas vozes se comuniquem melhor produzindo um diálogo saudável e uma compreensão mais produtiva.  A protagonista de “O que queremos para o mundo” consegue aceitar suas colegas, sua mãe e seu professor. A protagonista de “Pela Janela” consegue visualizar, como no título do filme, outras possibilidades de vida, e em “Benzinho” a água salutar do mar produz um sentimento de amor entre as famílias.

Os filmes selecionados não seguem o mesmo ritmo.  “Benzinho” apresenta fatos e atividades aceleradamente, tentando reproduzir os acontecimentos que fazem parte de uma família grande, com filhos de idades diferenciadas. As reações, especialmente da mãe, são instantâneas, sem reflexão, o que caracteriza a personalidade da protagonista e dos outros membros da família também.  “Pela Janela”, ao contrário, mostra com detalhes a rotina de Rosália e suas novas visões de mundo enquanto passageira que presencia outro país, com uma cultura bem mais alegre da característica de sua vida de trabalho. Suas reflexões ficam ainda mais expressas no final do filme, quando o quadro das cataratas parece ser o divisor de águas para uma vida futura.  Contudo, é no filme “O que queremos para o mundo” que podemos presenciar uma longa trajetória de reflexões, recriadas através de uma arquitetura visual de cores, de animações e de origamis. Com ritmo propositalmente expandido, a montagem reflete o estado de ânimo da protagonista, desde suas incertezas até a aceitação de sua personalidade que, no final do filme, se reflete em seu sorriso mais confiante e em sua atuação mais assertiva no trabalho de classe com as colegas.     

 

Sobre os filmes:  

 

“Benzinho” (2018- 1h35’),  dirigido por Gustavo Pizzi, com Karina Teles, Otavio Muller e Adriana Esteves.  Premiação: No Festival de Gramado, Vencedor do Prêmio de Audiência na Competição Brasileira;  Vencedor do Kikito de Ouro de Melhor Atriz (Karina Teles) e de Melhor Atriz Coadjuvante (Adriana Esteves) e Vencedor do Prêmio Kikito dos Críticos.  No Festival Espanhol de Málaga, o diretor ganhou o Prêmio “Puerta Oscura” e o filme foi considerado a melhor película iberoamericana, recebendo a medalha de ouro e, da Crítica Especializada, a medalha de prata.  

“Pela Janela” (2017 – 1h27’), dirigido por Caroline Leone, com Cacá Amaral e Magali Biff.  Caroline Leone recebeu o Troféu APCA, de Melhor Diretor, da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, em 2019.  O drama brasileiro-argentino venceu o prêmio da crítica em Roterdã, o prêmio especial do júri no DC International Film Festival e foi consagrado como melhor filme no Panorama Internacional Coisa de Cinema. O título em inglês, “ A Window to Rosália” é  bem adequado considerando que a protagonista passa a maior parte do filme dentro do carro, olhando a vida pela janela.   

“O que queremos para o mundo” (2016- 70’), dirigido por Igor Amin com Olívia Blanc, Sofia Sgarbi, Helena Trojahn Carrion, Milena Megrè.  O filme, inspirado na escuta empática de mais de 4.000 crianças, por meio de oficinas, vídeos e exposição multimídia, foi realizado de forma sustentável, com financiamento de crowdfunding, reinvestimentos próprios e doações, além de recursos da 7ª. edição do Programa de Estímulo ao Audiovisual – Filme em Minas- com apoio da Plataforma Catarse e do Canal Wings for Change do Instituto Asa. Participou da Mostra de Tiradentes e do Festival de Brasília de 2016. Foi agraciado com Menção Honrosa do Júri do Noida-India International Film Festival.

 


CURADORIA:

Denize Araujo, PhD em Cinema, Literatura e Artes -Univ California, Riverside, EUA; Pós-Doutora em Cinema e Artes- Univ do Algarve, Portugal; Diretora do Clipagem – Centro de Cultura Contemporânea; Docente e pesquisadora do Mestrado e Doutorado Linha de Pesquisa em Cinema e Audiovisual – Univ Tuiuti do Paraná; Curadora do FICBIC; Membro do Conselho Internacional, do Comitê de Normas e da Comissão de Publicação da IAMCR – International Association of Media and Communication Research; Líder do Grupo de Pesquisa CIC (CNPq), Imagem e Imaginários Midiáticos (Compós) e Vice-Líder do GT Visual Culture – IAMCR; Membro do Comitê Científico da SOCINE.